Amuleto

"Eu também ganhei um presente do Japão!" – e balança feliz, na frente da roda toda, pendurada na chave do apartamento, cuja cópia um dia eu próprio já tive, a materialidade da minha falha, há quase ou há pouco mais de um mês, de vislumbrar, através das rachaduras desse muro com o qual já fui tantas vezes confrontado, o que estava acontecendo de verdade na vida dele, o impossível de se extrair com perguntas. Merda, deveria ter dado para um amigo, penso na hora. Um erro capital que descaracterizaria a brincadeira que tenho com Bárbara, de que nós dois somos as pessoas menos autistas do mundo (a voz dela agora na minha cabeça: "Subtextos? Peguei todos. Entrelinhas? Li todas. Previ, inclusive, o que você ia falar agora"). Ele me disse que estava namorando desde poucos dias depois da última vez que nos vimos, e eu fui pego tão de calças curtas que a primeira coisa que pensei quando cheguei em casa foi: e se eu tivesse caído para trás da mureta ali naquela hora e morrido estatelado no chão uns cinco metros abaixo? Essa imagem repetindo-se na minha cabeça antes de dormir, a festa acabando, as pessoas gritando nas roupas dessa moda específica do meu micronicho, alguém tirando uma foto, tudo isso dividindo o ATP dos meus neurônios com a listagem minuciosa de todos os significados ocultos e mensagens contidas naquilo que eu escutara havia, acho, uma hora e meia. Nesse mesmo momento, percebi que era possível, de certo ângulo, ver a lua cheia da janela do meu quarto, o que me irritou porque deixou a minha tristeza muito mais bonita. Senti essa mesma irritação quando percebi que o que estava me impedindo de me debulhar em lágrimas com a cabeça encostada na janela do metrô vazio que peguei na volta para casa era a minha percepção nada conveniente de que aquela cena se parecia muito com algo saído do episódio Welcome to Bushwick, da primeira temporada de Girls.

Até agora, quase 48 horas depois, tenho a impressão de que ainda não encarei frontal e propriamente a realidade por trás daquela frase. Quando muito, olhei de rabo de olho. Já zerei, todavia, o checklist de endereçamentos mais óbvios: bloqueei em todas as redes sociais (pela primeira vez, o que pareceu mudar toda a experiência de clicar o dedo em um aplicativo para mim, tão engendrado ele estava, mas disso eu ainda preciso tirar a prova), comentei com meus amigos mais próximos, dei uma olhada no dito cujo e saí com o ego nas alturas — pelo menos isso ele não vai tirar de mim —, Jesus, que texto machucado —, mandei uma mensagem inocente para o meu terapeuta pedindo para antecipar a sessão e tive meu pedido recusado, enfim, a paçoca toda.

Pago para ver, agora, o que mais essa inflexão (escolhi essa palavra principalmente por conta do sentido de não retorno que ela tem para mim) vai empreender na minha vida. Profundamente, digo. Demorei quase meia década para, pela primeira vez, definir eu próprio o meu limite em relação a ele. Eu, tão entregue, tão fiel, tão submisso, como ele mesmo me acusou de ser reiteradas vezes, me sinto agora abrindo uma frestinha da janela da prisão sem guardas nem algemas que habitei no que alguns psicólogos devem chamar de os anos mais formativos da vida adulta. Seria autoindulgente da minha parte escrever aqui que foi ele próprio quem me conduziu para dentro? Acredito que não, dado que é ele próprio, também, quem vem me conduzindo para fora, passo a passo. Gosto da analogia que fiz outro dia, conversando com não sei quem, comparando essa situação com o tablado amaldiçoado onde as dançarinas dançam em Suspiria: os movimentos são conduzidos com graça por um agente desinformado no pavimento superior, enquanto são replicados à força por uma vítima agonizante um andar abaixo, onde os músculos não acompanham os ossos, e a experiência termina em uma salva de palmas e numa carne transfigurada, realidades separadas por uma camada de gesso.

Justo seria que a pessoa que criou em mim as condições de aprendizado do amor criasse também as do desamor: olhando em retrospecto, doloridos em igual medida.

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