Reza
Torrente de pensamentos. Sou agora capaz de escrever mil coisas, ilustrar essa situação por dois mil ângulos e me valer de três mil metáforas com as quais a compararei. Revolta-me o quão sensivelmente paradas estão todas as moléculas do ar nesta noite de segunda; eu, no alto de pilhas de demandas, preocupando-me com a estagnação das coisas, veja só. Passei há pouco pela sala e percebi ter brevemente torcido para bater sem querer o dedinho do pé na escada que o moço que veio aqui hoje ver a janela deixou. Se Deus quiser, esse dedinho se quebraria, eu seria levado ao hospital por duas pessoas que me amam, alugaria ao menos dez minutos da atenção de mais uma meia dúzia espalhada pela cidade e teria assunto para puxar com qualquer um até daqui a umas três semanas. Percebo a semelhança com o dia mais epifânico de que tenho memória, quando, atormentado até os ossos, esfolei a testa no portão de uma casa enquanto andava até o Sesc e arruinei a sessão de relaxamento perfeita que tinha planejad...