Último a saber

Me recolho na minha inocência como uma lagarta que, já enrodilhada e acuada, segue sendo cutucada por uma criança perversa. Atravesso, por mais uma vez, o ritual de humilhação pública ao qual essa relação já me submeteu muitas vezes no passado: a rachadura na persona que construo com tanto esmero e que o ensinei a respeitar, não sem protestos. Percebo que me escondo atrás desse mesmo disfarce quando sou provocado a reagir a essa situação esdrúxula, quase cinematográfica: evoco o nome de um sentimento muito mais nobre, superior, a vergonha, como se a minha preocupação fosse de ordem reputacional, apenas. Não me entenda mal, essa dimensão também existe. Minha mãe o segue no Instagram; a Folha de São Paulo deve ser o único jornal que lê. Ela, que naturalmente já torce o nariz para as práticas sexuais do próprio filho, não verá motivos para mudar de ideia. Nas curtidas, dezenas de pessoas para quem o apresentei como namorado. Situação análoga à de Carrie Bradshaw encontrando, pelas bancas de Nova Iorque, exemplares da revista que a trazia horrorosa na capa — "Single and Fabulous?"

O conjunto das minhas aflições é, entretanto, muito menos altivo. A angústia generalizada, permanente e difusa, difícil de nomear, mas que vale o esforço da tentativa: medo de encontrar, na rua, por acaso, e ter a semana arruinada por um pousar de olhos; sensação de estar ficando para trás na corrida que deve existir somente na minha cabeça; sensação de ter sido condenado, amaldiçoado, a partir do momento em que larguei as rédeas dos cavalos e os deixei correr soltos (percebo que, inconscientemente, fiz referência à charge antiga da Laerte que vi outro dia e que ironiza a ausência de rédeas nos cavalos do desejo); impotência diante do fato de que, por mais que eu próprio tenha finalmente me aplicado em prol do esquecimento, não controlo o mundo, não pretendo desacelerar meu viver: encontro-o na rua com frequência, agora acompanhado. Minha colega de quarto vem me perguntar, com um sorriso de escárnio, se eu li a Folha de São Paulo hoje.

Fiz desses limões uma limonada amarga, que deve ter ficado bonita no copo para quem via de fora. Diverti algumas pessoas com essa história no bar ruim a que fui à noite para me distrair. Fiz meus amigos rirem, embora eu próprio, pego de surpresa, tenha deixado evidente que ainda estava testando a melhor forma de reagir. Algumas pessoas disseram, com boas intenções, que minha vida parecia um filme, o que ensaiou afrouxar o nó na garganta. Corri para contar a certos grupos, pois tive medo de que viessem me contar antes. Nunca desinformado. Nunca o último a saber. O controle da narrativa é meu.

Já antecipo o que vou ouvir na quarta-feira de manhã: o velho-sempre-novo tema da surpresa. A incapacidade de se preparar para receber todas as informações e para escapar pela tangente de todas as situações. O rápido vislumbre de subjetividade grosseira, abrutalhada, e a ambivalência da reação íntima e secreta de quem me observa, que busco sofregamente revelar. Sou uma pessoa cada vez mais real ou cada vez pior aos olhos dos meus pares?

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