Reza

Torrente de pensamentos. Sou agora capaz de escrever mil coisas, ilustrar essa situação por dois mil ângulos e me valer de três mil metáforas com as quais a compararei. Revolta-me o quão sensivelmente paradas estão todas as moléculas do ar nesta noite de segunda; eu, no alto de pilhas de demandas, preocupando-me com a estagnação das coisas, veja só. Passei há pouco pela sala e percebi ter brevemente torcido para bater sem querer o dedinho do pé na escada que o moço que veio aqui hoje ver a janela deixou. Se Deus quiser, esse dedinho se quebraria, eu seria levado ao hospital por duas pessoas que me amam, alugaria ao menos dez minutos da atenção de mais uma meia dúzia espalhada pela cidade e teria assunto para puxar com qualquer um até daqui a umas três semanas. Percebo a semelhança com o dia mais epifânico de que tenho memória, quando, atormentado até os ossos, esfolei a testa no portão de uma casa enquanto andava até o Sesc e arruinei a sessão de relaxamento perfeita que tinha planejado a ponto de ir mais cedo buscar no sapateiro a bolsa que queria usar. Esses acontecimentos têm função ambígua: colocam tudo em volta do momento vivido em perspectiva (está-se vivendo um momento crítico e decisivo da vida; em uma semana nada será como antes; tem-se plena consciência disso; paralelamente, o sangramento teima em ser estancado e precisa-se decidir se vai ao hospital dar pontos ou não), ao mesmo tempo em que agudam o sentimento de protagonismo, de que o acaso se importa contigo a ponto de ser até irônico, travesso.

Me relacionar com Miguel inaugurou um desajuste que a parte menos exigente de mim prefere associar à normalidade da paixão. Um anseio de ser correspondido que, de tão óbvio, parece só poder ser seguido do fracasso, e um tempo recorde para a assunção dessa postura vassala. Demoro-me num comentário que ele fez sobre meu pinto, apresso-me em mudar um hábito que, numa fala tão despretensiosa quanto ácida, fez saber que não aprova. Passo a envergonhar-me de tudo o que sou capaz de dizer. Para agradar, haveria de ser outro. Minha recente gana de desafiá-lo também não poderia ser mais viciada: ouvi de um de seus amigos que é disso que ele gosta.

Instinto de mostrar esse texto a ele. Olha como escrevo bonitinho. Olha como sou um homem sensível, palavra que eu sei que ele gosta de usar, como sou honesto com meu coração. Elevei-o à postura de ser exemplar, que serve de molde para o meu próprio refinamento, e observo, na pilha de homens descartados que se acumula no céu da boca, que é essa qualidade que lhes faltou, é isso o que não conseguiram fazer. Ardo para saber se em algum momento cheguei a encantá-lo, se alguma piada que fiz ainda o acompanha e se existe em mim algo que admira e que não vê em si próprio. Uma imagem insistente pipoca na minha mente e, a contragosto, porém convencido pelo ideal de honestidade crua ao qual aqui me filio, a transcrevo: Ariel falando sobre mim com Luan, sintetizando, com um quê de simplicidade infantil, uma matiz da situação que, percebo agora, só faz jus ao que é se descrita assim: quero tanto que ele goste de mim.

No semiárido de agora, olho em retrospecto e me censuro por ter me pintado para os outros como o explorador de uma floresta equatorial. Traí um dos meus valores fundacionais, o de usar a retórica para me blindar de qualquer interpretação alheia que não me dignifique, e agora admito, embora não tenha sido essa minha intenção ao dar início ao parágrafo, que consigo gozar da dimensão positiva que essa deslealdade traz: ao menos nesta ocasião, fui menos escravo de mim mesmo. Fui sincero publicamente com o que sentia, e não apenas aqui. Fui verdadeiro, mesmo que chato, mesmo que repetitivo, mesmo que inconveniente.

A função liquidante do ato de escrever, equiparada à de um processo químico, me fez tomar a decisão de, se o encontrar de novo, me confessar a ele. Estou gostando de você. Essa frase agora me parece frívola e oca, ao mesmo tempo em que me traz paz. Estava debaixo do meu nariz o tempo todo: seu silêncio só era importante à medida que eu me prestava a tão somente mimetizar seus movimentos, encaixando meus pés nas marcas de suas próprias pegadas, o que já pressupõe que ele estivesse à minha frente. Entendo apenas agora a integralidade do conselho que recebi de Bárbara há poucos dias: responder, sim, mas não só.

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