Calma

Minha realidade favorita: edredons fazendo peso sobre mim. É tarde, esfrego os pés e estou sozinho. Sinto frio e calor. Logo me é prometido o momento de breve otimismo ou resignação que precede o desligamento. Nunca o desespero nem a angústia. Tem a função de um ponto e vírgula. É esse o momento mais neutro e universal. Tudo o que se pensa de pé não parece mais importante quando se deita, mesmo que ainda se sinta. O sentido do pensamento e a realidade concreta que o causa são esvaziados pela proximidade do sono. Nada de fora chega aqui. Não há que se falar em ser esse o momento de maior encontro consigo mesmo, quando se pode argumentar que é, na verdade, o momento de mais plena ignorância de si. Esse momento é quase meu sangue.



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